A Capela dos Fonsecas da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Luz de Maceira, Leiria: Estudo em Património Integrado
Objetivos
Levantamento do estado de conservação
Apreciação de uma proposta de ampliação, requalificação e restauro e consequente impacto estrutural e social sobre a capela
A capela
Inserida na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Luz de Maceira, a Capela dos Fonsecas, ou Capela dos Santos Brancos, é uma capela renascentista com retábulo e cúpula decorada. Possivelmente atribuída a um discípulo anónimo de João de Ruão, terá sido iniciada em 1563 no seguimento do testamento deixado por Francisco da Fonseca, fidalgo que terá providenciado o aumento da igreja.
A invocação é de (Nossa Senhora) dos Prantos e (Descida) da Cruz, conforme o retábulo, e é adornada com o alegado brasão da família Fonseca. Terá sofrido alterações, nomeadamemnte pintura e douramento durante obras à igreja em 1887 e 1924.
CAPELA: Razoável
Fendas, fissuras, e perda de material
Intervenções decorativas
Lacunas cromáticas
Exposição e danos de origem pluvial e fluvial
Adição de argamassas cimentícias
Vandalismo
Elementos metálicos enferrujados
Erosão
RETÁBULO: Razoável
Lacunas cromáticas com leitura dificultada
Perda de material de suporte
Fendas, fissuras, bolhas, estalados, fraturas
Argamassas de origem dúbia ou desconhecida
Danos de origem pluvial
Repinte à base de pigmentos inertes misturados com cal
Apreciação de uma proposta de ampliação
Em 2014, foi proposto um projeto de requalificação e ampliação da igreja, posteriormente aceite pela DGPC no início do ano de 2017, sem concretização até 2021,
A proposta prevê a adição de um espaço trapezoidal a oeste da igreja, sem atribuição de favorecimento à igreja ou enquadramento paisagístico mas com apresentação de fatores promotores de degradação estrutural. Prevê-se que as técnicas de demolição às zonas consideradas, tenham impacto negativo sobre a Capela dos Fonsecas a nível estrutural através de vibrações extremas, extensão de fendas e fraturas, possível perda de coesão ao nível das fundações, entre outros.
É de salientar que a área da Capela dos Fonsecas, foi construída sobre um lençol freático bastante superficial, que culmina numa pequena cascata, visível no parque a poucos metros de distância da Igreja. Inclusive, o som da água do lençol é percetível dentro da capela, e é responsável por diversos danos à mesma, de origem pluvial.
É ainda importante mencionar que a igreja sofreu com o impacto vibracional do terramoto de 1755 em Lisboa, e que a sua estrutura não está perfeitamente coesa, ao ponto que documentação escrita menciona o estado de ruínas em alguns pontos da igreja.
Não obstante, é uma proposta viável considerando a realização e conclusão de um projeto de conservação e restauro que antecipe a salvaguarda da estrutura religiosa.
A nova estrutura proposta é claramente contemporânea e moderna, com pormenores criativos à luz da devoção cristã, mas que sobressai e destaca-se pela completa oposição visual à igreja.
Não se equaciona a criação de uma nova igreja e migração dos serviços uma vez que isso culminaria na negligência e rejeição da Igreja Paroquial de Maceira.
A Igreja terá tido o nome completo, inicialmente, de Ermida de Nossa Senhora de Maceira ou Sancta Maria de Macenaria. Segundo lendas, o termo "Maceira" poderá vir de "macieira" na sequência de Nossa Senhora ter aparecido a uma popular e de lhe ter oferecido maçãs fora de época, ou devido à existência de uma macieira no local onde a ermida foi erguida.
O seu orago, Nossa Senhora, é celebrado a 8 de setembro de acordo com o Sagrado Coração de Jesus, e alegada data de nascimento de Nossa Senhora. Porém, a igreja celebra no dia 18 de dezembro, coincidente com a semana das antífonas (Nossa Senhora do Ó) e dia de Nossa Senhora da Expetação / da Anunciação. Devido a esta sobreposição, o nome mais recente de Nossa Senhora da Luz foi frequentemente associado ao baixo calão de "dar à luz". Ou seja, Nossa Senhora da Luz refere-se ao ato de "dar à luz" após a Expetação ou Anunciação da sua santíssima gravidez, e consequentes vocalizações "Ó" durante o ato.
O mesmo não é verdade e é apenas um populismo derivado da sobreposição e coincidência de datas. O termo "da Luz" vem da devoção mariana em que a Virgem terá apresentado o Menino Jesus a Simeão, sumo-sacerdote no Templo de Jerusalém, conforme a Profecia de Simeão em que a Virgem lhe apresentaria a luz, a 2 de fevereiro.
Tamb]em se pode conjeturar que "da Luz", segundo a invocação pelos cegos, se refira ao próprio nascimento de Nossa Senhora que será portadora da Luz - Menino Jesus.
Assim, a invocação de Nossa Senhora da Luz refere-se à Virgem em si e/ou ao Menino Jesus, seu fruto, e não à ação de "dar à luz".
Conforme mencionado, a Capela dos Fonsecas é também conhecida como Capela dos Santos Brancos que, de acordo com documentação encontrada, poderá resultar do facto do retábulo ser originalmente branco. De acordo com éticas profissionais e estudos de valências, o estado original da capela seria o mais apetecível e correto de restaurar. Isto é, ao retábulo da capela deveria ser restituida a coloração branca. Porém, não é um visual que a população de Maceira, público-alvo da igreja, tenha em mente, o que significa que o visual branco não suscitaria qualquer emoção de ligação do crente ao retábulo. Assim, o valor e importância da capela seriam perdidos.
Semelhantemente, a igreja é adornada de um arco imperfeito que liga a nave ao altar-mor, em tom cinzento. Este arco é originalmente dourado, conforme documentação escrita e observação no local, porém os crentes de Maceira não conhecem esse visual e não se sentem ligados ao mesmo. A restituição do aspeto original, à partida mais valioso e importante, torna-se assim fútil e danoso à estrutura religiosa porque levaria ao seu desuso.
Este estudo põe em perspectiva o "porquê" e "como" é que um edifício de devoção é importante para quem realmente o utilizará e evidencia as razões para o abandono de algumas estruturas intervencionadas. Quando se prepara uma proposta de intervenção de conservação e restauro, é preciso ter em consideração a quem o objeto final será entregue. Não no sentido legal, como um museu ou um coleccionista, mas sim quem o irá observar e adorar.
Obras de arte nascem de uma emoção do artista mas sobrevivem do relacionamento que o observador tem com a mesma. A emoção do artista pode ser documentada, mas sem a adoração de um observador, é apenas mais uma criação.









